Disse em um artigo anterior (Os
Novos Donos do Poder) que o Estado assistencialista brasileiro é uma continuidade
do Estado Patrimonialista português. Ou seja, eles são duas faces da mesma
moeda. Este tipo de Estado para se expandir e se mater necessita de fartos
recursos que são tirados, grosso modo, dos contribuintes por meio de
impostos e outras formas de espoliação. Mas a sua sanha por dinheiro é infinita:
quanto mais arrecada, mais gasta. Nesse sentido, também é um Estado perdulário.
O reflexo disso na economia é extremamente negativo, pois culmina na falência
de várias indústrias, empresas e comércios que, por sua vez, eleva o desemprego
e a miséria para uma parcela significativa da população. Ademais, com a redução
da produção é inevitável o aumento da inflação, reduzindo, assim, o poder de
compra e de sustento das famílias. Esse é o efeito catastrófico de um Estado
perdulário.
Os governos petistas têm se notabilizado
pelos elevadíssimos gastos e, por conseguinte, o aumento exacerbado de impostos.
Em 2026, os gastos do governo bateram recordes. Guilherme Grandi, em uma artigo
intitulado Dívida pública brasileira alcança R$ 11 trilhões e chega a 82,9%
do PIB, publicado em 30/09/2026 na Gazeta do Povo, diz que esse avanço de R$
11,1 trilhões em agosto do corrente ano “foi influenciado principalmente pelos
juros nominais, que acrescentaram 0,8 ponto percentual ao indicador, enquanto a
desvalorização cambial teve impacto de 0,1 ponto e a variação do PIB nominal
reduziu o índice em 0,5 ponto. Em julho, a Dívida Bruta do Governo Geral
(DBGG), que reúne União, Estados e municípios, estava em R$ 10,9 trilhões, ou
82,5% do PIB”. O atual governo, em comparação com os últimos três governos, “fez
a dívida pública aumentar 11,2% desde janeiro de 2023”, diferentemente da gestão
de Jair Bolsonaro que conseguido reduzir a dívida pública gerada pela pandemia
para 71,7% ao final do mandato” (não se deve esquecer que o governo Bolsonaro
deixou um superávit de R$ 54 bilhões, gastos no primeiro ano do governo
petista).
Grandi ressalta ainda que “Dados
do Banco Central e do IBGE apontam que a dívida pública por habitante no país
disparou de R$ 7.157 em 2006 para R$ 51.608 em 2026”. Ademais, “Cálculos da
evolução da dívida apontam que o governo levou apenas 8 meses para a dívida
passar de R$ 10 trilhões para R$ 11 trilhões”. Ou seja, em 8 meses o governo
petista gastou R$ 1 trilhão. Com toda essa gastança, em agosto, prossegue o
articulista, “o Governo Central apresentou déficit de R$ 14,7 bilhões, enquanto
Estados e municípios, somados, tiveram superavit de R$ 2,7 bilhões e as
empresas estatais registraram resultado positivo de R$ 2 bilhões. No acumulado
de 12 meses, o déficit primário do setor público ficou em R$ 82,1 bilhões,
equivalente a 0,62% do PIB”.
O jurista Ives Gandra Martins, em
artigo intitulado A herança fiscal do atual governo que ameaça o futuro do
Brasil, publicado no site sustentabilidade em pauta, em 09/10/2026, afirma
que “Ao optar por expandir o gasto público sem freios e priorizar soluções arrecadatórias
em vez de cortar despesas, o governo Lula aposta em um modelo esgotado de
crescimento via intervencionismo estatal. Essa escolha deliberada de ignorar a prudência
fiscal e sufocar o setor produtivo com impostos corrói a confiança dos
investidores, eleva os juros e transfere para a próximas gerações uma conta
impagável. Trata-se de uma política econômica que sacrifica a estabilidade de
longo prazo em nome do populismo imediato”.
Toda essa gastança, como disse
acima, resultou numa crise econômica de enorme proporções, especialmente para o
setor privado. Vandér Kramer, em artigo intitulado Casas Bahia e Marabraz
expõem crise que arrasta centenas de varejistas à recuperação judicial, publicado
na Gazeta do Povo, em 18/08/2026, diz que “O varejo brasileiro terminou o
primeiro semestre com 986 empresas em recuperação judicial, alta de 20,4% em um
ano, segundo levantamento da RGF Associados”. Entre “os principais fatores por
trás da crise está o ciclo de crédito restritivo: juros altos, crédito escasso
e endividamento elevado corroeram o poder de compra das famílias e o fôlego
financeiro das redes. A 14% ao ano, a taxa básica de juros está em um nível
considerado restritivo para a economia e encarece o acesso ao crédito. Para o
varejo, o impacto ocorre dos dois lados do balcão: o consumidor encontra mais
dificuldade para parcelar as compras, enquanto as empresas pagam mais caro para
financiar estoques, capital de giro e dívidas”. A consequência dos juros altos
é que “as vendas no varejo encolhem há 14 meses seguidos, segundo a Cielo. Já o
endividamento das famílias brasileiras atingiu o recorde de 82% em julho,
segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic)
divulgada pela CNC”.
Entretanto, alerta Kramer, a recuperação
judicial “é apenas a parte visível da crise. Muitas empresas pequenas nem
chegam a recorrer ao mecanismo e simplesmente fecharam as portas. Segundo o
levantamento, o varejo registra 686 empresas em falência e 986 em recuperação
judicial, uma relação de uma falência para cada 1,4 empresa em recuperação – a
maior proporção entre os grandes setores”.
A falência e a recuperação judicial das empresas elevam o número de pessoas desempregas e, por conseguinte, o aumento de pessoas que irão recorrer aos “benéficos” ofertados pelo Estado assistencialista, cujo pagamento é fruto da expropriação oriunda daqueles que pagam impostos. Mas o Estado não lhe restitui o que lhe foi retirado em sua integralidade, mas apenas lhe oferece migalhas que te tornarão dependentes dele. Eis o ciclo da servidão voluntária tratado no artigo anterior (Os Novos Donos do poder).
Em um artigo intitulado Para
cada empregado no setor privado, Brasil tem 2,36 pessoas dependentes do governo,
publicado na Gazeta do Povo, em 11/09/2026, Fábio Calsavara assinala que “Há um
Brasil que trabalha para produzir riqueza e pagar impostos — e há um Estado
cada vez maior para distribuir esses recursos”. Ou seja, quem paga os beneficiários
dos programas sociais são aqueles que efetivamente trabalham. “O tamanho dessa
conta aparece”, diz o articulista, “quando se colocam alguns números sob
análise: de um lado, o país tem 39,4 milhões de empregados com carteira
assinada no setor privado; de outro, 93 milhões de beneficiários de programas
sociais, aposentados e servidores públicos que dependem diretamente do Estado
para poder sobreviver. Em outras palavras: para cada trabalhador no setor
privado, o país tem 2,36 pessoas que dependem dos cofres públicos para
sobreviver”.
Essa pesquisa revela dados importantes
que possibilitam entender a nocividade do Estado assistencialista. Primeiro, se
consideramos que a população brasileira é de 213 milhões, a quantidade de pessoas
que depende do Estado em termos de valores pecuniários é de aproximadamente
43,66% da população. Segundo, se há um aumento de pessoas dependentes dos
programas sociais, então significa o aumento da desigualdade social e da
miséria (coisa que eles dizem estar reduzindo); é a igualdade da miséria.
Terceiro, se o Estado gasta tanto com programas sociais é porque o sistema econômico
promovido pelos governos que seguem essa linha é um fracasso.
Para além disso, a pesquisa
revela a quantidade de pessoas, em quatro grupos, cujo pagamento é oriundo do
Estado: dos 93 milhões estão: os beneficiários dos programas sociais (49,7
milhões); os que recebem BPC (6,4 milhões); os aposentados do INSS (24,3
milhões) e os servidores públicos municipais, estaduais e federais (12,6
milhões). Ou seja, temos mais beneficiários dos programas sociais (50,86%) do
que o total de todos aqueles que rebem outros benefícios, salários e
aposentadorias.
A pesquisa demonstra também,
revela Calsavara, que “há uma fatia dessa população que depende única e
exclusivamente dessa renda transferida pelo Estado para sua subsistência”. Ou seja,
famílias onde ninguém trabalha, formal ou informalmente: “Esse contingente
chega a 5,5 milhões entre quem recebe o BPC e outros 16,7 milhões dentro do
Bolsa Família”. Isso significa que “mais de 22 milhões de brasileiros, mais de
10% da população do país, não contam com nenhuma outra fonte de renda a não ser
o benefício que recebem do Estado. Sem um trabalho, são umbilicalmente
dependentes do governo para garantir a própria subsistência”. Desta forma, finaliza
Calsavara, “O Brasil construiu um Estado que arrecada e transfere recursos,
paga salários, financia aposentadorias e distribui benefícios para uma parcela
enorme da população. E quem paga essa conta não é o Estado: é a própria sociedade,
por meio dos impostos e contribuições cobrados sobre o trabalho, o consumo, a
renda e a produção”.
Mas toda essa situação caótica no
campo socioeconômico ocorre porque o Estado brasileiro é originalmente intervencionista.
O Estado intervencionista é aquele cujo governo não se restringe, como explica
Ludwig von Mises, em sua obra As seis lições, as atividades de preservação
da ordem pública e da produção segurança. O Estado intervencionista, “revela um
governo desejoso [...] de interferir nos fenômenos do mercado”. Isto é, quando se
fala de intervencionismo, está se referindo “ao desejo que experimenta o
governo de fazer mais que impedir assaltos e fraudes”. Em outros termos, o intervencionismo “significa
que o governo não somente fracassa em proteger o funcionamento harmonioso da
economia de mercado, como também interfere em vários fenômenos de mercado:
interfere nos preços, nos padrões salariais, nas taxas de juros e nos lucros”
(85).
Mises revela que “todas as
medidas de intervencionismo governamental têm por objetivo restringir a
supremacia do consumidor”. Isto é, “O governo quer arrogar a si mesmo o poder –
ou pelo menos parte do poder – que, na economia de marcado livre, pertence aos
consumidores” (85). O economista diz ainda que “A ideia da interferência governamental
como ‘solução’ para problemas econômicos dá margem, em todos os países, a
circunstâncias no mínimo extremamente insatisfatórias, e, com frequência,
caóticas” (100) (como se pode observar no Brasil).
Os números mostrados aqui já são
suficientes para termos uma noção dos problemas causados por um Estado assistencialista,
perdulário e intervencionista. Mas não podemos encerrar esse pequeno texto sem
citar a corrupção, que é uma das características do Estado patrimonialista, a
forma de mantar o poder e a submissão das massas. A corrupção no Brasil não é
algo recente, data dos primórdios de sua formação jurídico-política. Reis
Friede, em sua obra O Estado cruel: radiografia de uma país chamado Brasil,
diz que “a multiplicação desenfreada de casos de corrupção pode ser atribuída,
em grande parte, à desmedida e indevida participação do Estado na economia e em
diversos outros segmentos estatais” (40). Ou seja, o intervencionismo estatal é
uma das causas da corrupção.
Com a revelação de tantos escândalos
de corrupção nos últimos anos, mais especificamente no âmbito da Operação
Lava-Jato, diz Friede, “é possível concluir que a corrupção, no Brasil, não
funciona apenas como uma fonte ilícita e imoral de enriquecimento”. Ela serve “também
para garantir estabilidade e sustentação a um esquema de perpetuação das organizações
criminosas que se instalaram no Estado” (eis uma constatação gravíssima, mas
real, e que diz respeito ao conluio que se formou no país entre os caciques do
três poderes como vimos no artigo Os Novos Donos do Poder).
Para Friede “Há uma especial de
corrupção institucionalizada”, que se apresenta “de forma transideológica”, cujos
“governos de direita e esquerda apresentaram diversos casos de malfeitos
institucionalizados” (40). Ademais, “diferentemente do que acontece em vários
outros países, a corrupção por si só não derruba governos” (41), somente se não
houver apoio político (como ocorreu nos casos de Color e Dilma).
Para Friede, a corrupção também é
uma grande promotora de violações de direitos humanos que se observa no cotidiano
nacional: “Sem receio, é possível denunciar que a corrupção brasileira, além de
ostentar níveis elevadíssimos, figura como uma das mais graves e preocupantes
forma de violência perpetrada pelo Estado”. Segundo o autor, não é incoerente
afirmar que, “em certos aspectos e guardadas as devidas proporções, a corrupção
mata mais que os fuzis que estão nas mãos dos narcotraficantes e dos milicianos
que aterrorizam as cidades do país” (42). (acrescento aqui que a corrupção é
uma via de mão dupla, pois tanto é usada ativamente pelo crime
organizado que atua fora das fronteiras do Estado para “molhar a mão” dos criminosos
organizados que atuam dentro das fronteiras estatal, como é usada passivamente
por estes, permitindo que aqueles atuem livremente em suas atividades ilícitas).
Retornando à relação entre o Estado
patrimonialista e a corrupção, Friede enfatiza que “o gigantismo do Estado
encontra-se intimamente associado à corrupção. A excessiva regulamentação
estatal, além de funcionar como mecanismo incentivador desse fenômeno, opera
também como elemento que o perpetua, exatamente o que se observa no Brasil”
(42). A corrupção no país revela uma relação promiscua e nefasta entre
segmentos público e privados, que se constitui numa espécie de corrupção
política, que é uma espécie, diz Friede, “que alcança altos níveis
governamentais e se identifica, por exemplo, quando a atividade legislativa é
exercida em benefício dos próprios agentes políticos e de determinados grupos
econômicos” (43).
O autor exemplifica vários casos
de corrupção que ocorreram no Brasil nos últimos anos, cujos “escândalos tiveram,
no seu epicentro, empresas públicas e sociedades de economia mista integrantes desse
Estado ‘gigante’” como, por exemplo, “os esquemas criminosos descobertos nas
Empresas Brasileiras de Correios e Telégrafos – investigados por uma comissão
parlamentar mista de inquérito (CPMI) instalada em junho de 2005 – e na
Petrobrás S/A, esta última o principal alvo da Operação Lava-Jato, e
onde teria ocorrido o maior escândalo de corrupção de todos os tempos” (43) (o
autor já havia terminado o livro quando vieram à tona os escândalos do INSS e
do Banco Master, que transcendem e muito os números do Petrolão e do Mensalão
juntos).
Friede conclui o tema da
corrupção dizendo que “uma das saídas para o problemas da corrupção é a
redefinição do papel do Estado, tornando-o menos prepotente, menos perdulário e
mais eficiente”; se fazendo necessário “eliminar um dos principais fatores que
leva à corrupção: a ideia de que o Estado deve ser onipresente e onipotente,
propiciador de toda a sorte de serviços públicos, muitos dos quais pessimamente
prestados. Na prática, o mesmo Estado que se propõe a oferecer todos os tipos
de serviço acaba por não prestar um dos mais fundamentais, e que está associado
às funções essenciais de qualquer país: a projeção de sua soberania territorial
no âmbito de suas fronteiras, garantindo, assim, a ordem interna, incluindo a ordem
pública em geral. Aliás, a reconhecida deficiência brasileira no que se refere
à vigilância de suas fronteiras explica, pelo menos em parte, os elevados índices
de criminalidade com os quais nos acostumamos a viver” (44).
À guisa de conclusão, se no próximo
dia 25 de outubro ocorrer a mudança do governo perdulário de Lula pelo governo
de Flávio Bolsonaro, identificado como liberal, o novo governo terá desafios gigantescos,
pois desmantelar o Estado patrimonialista não será tarefa fácil, muito pelo
contrário, pois o estamento patrimonialista estatal vai impor uma série de obstáculos
para evitar qualquer tipo de mudança que ameace retirar os seus privilégios. Com
isso, o desaparelhamento dos organismo estatais será inevitável para que se implante
um novo modelo de gestão e cultura administrativas.
No processo de passagem de um
modelo de gestão patrimonialista para uma modelo de gestão liberal, a redução
do Estado é de fundamental importância, diria até que é uma condição sine
qua non, pois reduziria à médio e longo prazo o número de funcionários públicos,
especialmente aqueles que são beneficiados com os chamados cargos comissionados.
Como disseram Mises e Friede, a preocupação precípua do Estado deve ser com a preservação
da ordem pública e da produção da segurança das pessoas contra os ataques
internos e externos. Os demais serviços podem ser prestados pelos entes
privados como ocorre em vários países que se libertaram do engodo chamado Estado
de bem-estar social.
A redução dos gastos públicos e dos impostos e, por conseguinte, a redução da dívida pública, serão desafios importantes para que a economia retorne a crescer, fazendo com que caiam os juros, o desemprego e o número de pessoas que dependem dos programas sociais, especialmente do Bolsa família: mais de 23% da população recebendo Bolsa Família é um exemplo cabal da falência econômica do país. Uma economia pujante é uma economia onde o mercado é regulado pelo consumidor como nos ensinou Mises e onde as pessoas tenham liberdade para realizar os seus desejos materiais como a aquisição de uma casa, de um veículo sem precisar da interferência do Estado.
Prof. Dr. Dequex Araújo Silva Junior
Associado do Instituto Brasileiro de Segurança Pública.
Membro fundador da Academia Baiana de Letras, Artes e Tecnologia dos Militares Estaduais.

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